Os portugueses são um povo genial! Somos muitos bons em várias áreas, é pena que por vezes não nos dêem as oportunidades devidas. Neste momento deve o leitor estar a pensar em que somos os maiores. Obviamente que é no automobilismo. Não, não
não falo do Tiago Monteiro, Carlos Sousa, entre outros mas sim no “Tuga Racing” desconhecido, aquele anónimo que é um verdadeiro Figo dos asfaltos. Tal como o Figo faz com a bola, o “Tuga Racing” transforma um simples (por vezes chaço) veiculo em algo fantástico quem nem os melhores engenheiros japoneses nem os melhores designers italianos se lembrariam.
Esta apetecia para o Tunning não vem de agora. O meu tio Américo já era um grande génio dos automóveis nos anos 80. Tinha um Datsun 1200 branco, ultimo modelo. Como se não bastasse, teve de dar um toque pessoal no bólide. No capot a frente tinha um autocolante de uma águia que quando abanávamos a cabeça de um lado para o outro até parecia que ia levantar voo. Na retaguarda tinha inevitavelmente um P com a bandeira de Portugal e uma Penélope. Sinceramente estes dois autocolantes nunca percebi a sua utilidade porque ele ate nem comprar caramelos a Badajoz alguma vez foi, bem mas
confesso que até ficava bonito.
Os pneus era como ele dizia “Puto, isto é à Nigel Mansell” grandes e slick. Geralmente comprava-os na feira de Carcavelos em 2ª mão, uns Pirelli com 100.000 km quase novos. Por dentro só mesmo visto. Perdurado no espelho retrovisor estavam 1 terço de Fátima, um galhardete do Benfica, um corno (dizia que era para espantar as bruxas), um par de bonecos da ilha da madeira que um vizinho lhe ofereceu, um pinheirinho verde já ressequido do sol e sem cheiro e um boneco que apitava com os solavancos do carro. No tabelier tinha colado uma chapa com a identificação e morada do condutor para que se roubassem o carro os ladrôes o pudessem depois deixar em casa quando já não precisassem. Como isso poderia não bastar, tinha também colada uma moldura com as fotografias dele, da minha tia Gracinda e do cão. Os bancos eram cobertos com uma manta que no Verão até picava por causa das serugas que tinha espetadas por causa dos piqueniques e para dar aquele toque mais bucólico ao interior tinha na parte de trás ramos de eucalipto e algumas pinhas.
O que mais gostava daquele carro era o som, não o do motor mas o do rádio. Bem, tinha um cantante que era um espectáculo, já equipado com leitor de cassetes e rádio FM/AM. Quando havia la feira no Vale da Burra era vê-lo junto a barraca das cassetes a comprar um molhe de fitas de Graciano Saga, Nel Monteiro, Luís Filipe Reis, Agrupamento Musical Diapasão e o preferido da rameira da minha tia
o Rancho Folclórico de Arribanceiras de Bastos. Tanto apertão de bochechas levei ao som de Nel Monteiro “Azar na Praia” quando nos iam visitar e faziam questão de irmos passear pela Serra da Arrábida. Unfffffff
Com tanto protagonismo dado ao carro quase esquecemos do condutor. A condução era feita com uma mão no volante e o braço esquerdo (que ostentava uma tatuagem com uma águia (?) e Lourenço Marques 1972) na janela. Coisa simples mas muito bonita já para a época.

Muita coisa mudou desde então mas sempre com uma evolução positiva de faz de nos os maiores ases do asfalto. O velho mas potente Datsun 1200 com tracção atrás perdeu o seu lugar para um chaço qualquer. Hoje em dia qualquer Renault 5, Opel Corsa ou Fiat Punto serve de base para a criatividade do Tuga. Para começar basta que o motor seja a gasolina de preferência entre 1000 e 1100cc e 65-75cv, coisa pouca mas quanto baste para não se gastar muito. São nestes pormenores que faz de nós génios da engenharia, ambiente e economia. Para que gastar muito dinheiro se podemos transformar depois o carro numa grande bomba amiga do ambiente e económica? Inicialmente o motor leva um novo filtro de ar que adiciona logo um novo ronco e mais 5cv. Os pneus de baixo perfil de maior largura conferem-lhe uma estabilidade superior perante as lombas e buracos que crescem a olhos vistos nas nossas estradas. O escape então é mesmo uma loucura! Remus do mais barato (mais uma vez a economia aliada à potencia) que aliado a filtro do ar acrescenta mais uns 10cv e um ronco descomunal. Ate parece a recta da meta do Autódromo do Estoril. Com tanta potência é preciso uma aerodinâmica especial e mais uma vez estamos em vantagem. Suspensões rebaixadas, um pára-choques a raspar pelo chão e um aleron enorme para cortar o vento que mais parece uma asa de avião.
O interior é mais uma obra de arte. Os bancos são forrados com capas a imitar bancos de competição em pele, uma alternativa bem mais barata e com o mesmo desempenho. Na ventilação um “Ambipur” daqueles com um cheiro que fazem lembrar um peido. Só mesmo quem o pôs lá é que curte o cheiro. No espelho retrovisor fica pendurado um CD que serve para enganar os radares da Brigada de Transito. Por falar em CD’s, não poderia esquecer o promenor do som. Rádio leitor de CD’s da Fenner ligado a um amplificador encaixado no porta luvas e comprado em promoção no LIDL e com um sub-woofer que ocupa totalmente a bagageira. Agora o pormenor que mais gosto: o autocolante no vidro traseiro a dizer CLARION. Isto tem uma razão de ser, é que os bandidos assim pensam que o carro esta equipado com um sistema de som Clarion e quando vêem que é da Fenner já não roubam. Na onda dos autocolantes ainda existe aquele a dizer Racing com xadrez no vidro da frente e as bandas brancas desde a frente ate a traseira.
O condutor, perdão
o piloto enverga um fato de competição composto por uns ténis da Nike, meia da raquete branca, calça de ganga, camisa de alças, fio de ouro ou de prata para fora com uma medalha ou um crucifixo, boné dos New York Yankees, óculo de sol Arnette da feira e brinco na orelha. A sua posição de condução mudou muito em relação ao condutor dos anos 80 adoptando uma postura ligeiramente inclinada para o lado direito, mão esquerda no volante com o respectivo cotovelo virado para a janela, sendo que a mão direita vai na maneta das mudanças caso viagem sozinho ou na perna da loira. Quando são ultrapassados olham para a loira caso estejam acompanhados, caso contrario olham para o rádio ou abrem o porta luvas fingindo que estão ocupados e não arriscam a acelerar muito enquanto estão distraídos. Prudência pois claro!
Actualmente estas criações motorizadas com a loira lá dentro de mini saia mais parece o avião que Gago Coutinho e Sacadura Cabral fizeram a travessia do Atlântico com uma hospedeira de bordo.
Mas ainda existem coisas que ainda não percebi bem. O facto de ver constantemente o carro de um amigo meu fanático do tunning com a parte da frente toda arregaçada despertou a minha curiosidade e perguntei-lhe o que tinha sido.
“- Epá.. então não é que estava parado e veio um velho a fazer marcha atrás e pimba no meu pára-choques?”
Passado uns tempos volto a encontra-lo:
“- Então, ainda não mandaste arranjar o carro?”
“- Mandei pá, mas vê lá tu, estava estacionado e um gajo veio turrar comigo
”
É preciso ter azar. Acho que o meu tio Américo tinha razão quando dizia que o corno que tinha pendurado no espelho espantava as bruxas. Como dizem os espanhois “No creo en las brujas, pero que las hay, las hay”
